quinta-feira, 14 de junho de 2012

Ética, história da ética. Moral e ética. Ética e Bioética.


 Ética - Estudo do juízo de apreciação que se refere à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto (Aurélio Buarque de Holanda Ferreira).

 Ética - A ciência da moral; moral (Caldas Aulete).

 Ética - É a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade (Adolfo Sánchez Vázquez). 

 Tomando as diferentes definições de Ética, temos de partir para uma definição também Moral:

 Moral - Conjunto de regras de conduta consideradas como válidas, quer de modo absoluto para qualquer tempo ou lugar, quer para grupo ou pessoa determinada (Aurélio Buarque)

Moral - Parte da filosofia que trata dos costumes, deveres e modo de proceder dos homens para com os outros homens (Caldas Aulete)

Moral - É um sistema de normas, princípios e valores, segundo o qual são regulamentadas as relações mútuas entre os indivíduos ou entre estes e a comunidade, de tal maneira que estas normas, dotadas de um caráter histórico e social, sejam acatadas livre e conscientemente, por uma convicção íntima e não de uma maneira mecânica, externa ou impessoal (Adolfo Sánchez Vázquez). 

E completando a definição de termos relacionados ao tema, vejamos Deontologia.

Deontologia - O estudo dos princípios, fundamentos e sistemas de moral. Tratado de deveres (Aurélio Buarque). 

Deontologia - Ciência dos deveres (Caldas Aulete).

Deontologia - Teoria da obrigação moral quando não se faz depender a obrigatoriedade de uma ação exclusivamente das conseqüências da própria ação ou da norma com a qual se conforma (Adolfo Sánchez Vázquez). 

Tendo em vista tais definições, verificamos que, em linhas gerais, a Ética é a Norma, enquanto a Moral é a ação. Ou, em outras palavras, a Moral é o que acontece e a Ética é o que deveria ser. 

A Deontologia é o conjunto codificado das obrigações impostas aos profissionais de uma determinada área, no exercício de sua profissão. São normas estabelecidas pelos próprios profissionais, tendo em vista não exatamente a qualidade moral de suas ações, mas a “correção” das mesmas, tendo em vista a relação entre profissão e sociedade. O primeiro Código de Deontologia foi feito exatamente na área médica, nos Estados Unidos, em meados do século passado. 

Já o termo BIOÉTICA surgiu em 1971, também naquele país, não objetivando repetir o que já existia na área médica, mas abrangendo todo o inter-relacionamento com as diferentes formas de vida que em última análise afeta profunda e decisivamente o Ser Humano. 

Portanto, estudar a Ética é formar o embasamento para o comportamento moral que se faz imprescindível ao exercício profissional, mormente em profissões que lidam com a saúde, mais especificamente com o Ser Humano. Dentro de um manual prático de estudo da Ética profissional, portanto um estudo específico, torna-se inadequada uma visão mais ampla de todo o embasamento filosófico e histórico deste difícil assunto. Vejamos, entretanto, algumas linhas gerais apenas para facilitar a compreensão de seu posicionamento em nosso “aqui e agora”. 

Nas palavras de Vázquez, as doutrinas éticas fundamentais nascem e se desenvolvem em diferentes épocas e sociedades como respostas aos problemas básicos apresentados pelas relações entre os homens, e, em particular, pelo seu comportamento moral efetivo. Existe assim uma estreita vinculação entre os conceitos morais e a realidade humana, social, sujeita historicamente à mudança. Dentro desta conceituação, as doutrinas éticas não são consideradas de modo isolado, mas dentro de um processo de mudança e de sucessão que constitui propriamente a sua história. 

  Uma moral primitiva surgiu com o próprio homem, onde a sobrevivência básica se constituía na norma ética fundamental. A “Moral Tribal” se resumia em trabalhar para comer, matar para não morrer. 

O   homem da caverna lutava para se alimentar e para preservar o seu abrigo natural. Naquelas circunstâncias, atitudes de alta agressividade - na nossa conceituação atual - poderiam e eram consideradas eticamente válidas. Mas o homem primitivo foi evoluindo e suas novas realidades sociais criaram por sua vez novas realidades éticas que modificaram e até mesmo anularam as regras anteriores.

Nesta nova evolução histórica, chegamos à civilização grega que influiu de modo avassalador em nosso mundo ocidental.

Surgiu então a chamada Ética Grega. Ao naturalismo dos filósofos pré-socráticos sucedeu uma preocupação com os problemas do homem, seus problemas políticos e morais, em decorrência da democratização da vida política da Antiga Grécia. Aparecem então os filósofos e grupos que introduzem novas formas de posicionamento que marcaram a história. 

No século V a.C., surgiram os Sofistas que consideravam estéril o saber a respeito do mundo, sendo atraídos especialmente pelo saber a respeito do homem, particularmente político e jurídico. Tornaram-se os mestres que ensinavam a arte de convencer pela argumentação, pela discussão. Para eles não existiam nem verdade nem erro e as normas, por serem humanas, eram transitórias. 

Surgiu em seguida Sócrates, que, apesar de também desprezar o conhecimento da natureza e a tradição, rejeitava o relativismo e o subjetivismo dos sofistas. Sócrates considerava como saber fundamental o saber a respeito do homem. Daí seu ensinamento básico: “Homem, conhece-te a ti mesmo”. E acrescentava: “Só sei que nada sei!” Concluindo: “Deve-se melhorar o conhecimento e aperfeiçoar a conduta”. 

A ética socrática é racionalista e pode ser resumida na seguinte colocação: “O homem age retamente quando conhece o bem, e, conhecendo-o, não pode deixar de praticá-lo; por outro lado, aspirando ao bem, sente-se dono de si mesmo e, por conseguinte, é feliz”. 

À ética socrática segue-se a de Platão, seu discípulo, a qual dependia intimamente da sua concepção metafísica (dualismo do mundo sensível e do mundo das idéias permanentes, eternas, perfeitas e imutáveis que constituíam a verdadeira realidade) e da sua doutrina da alma (princípio que animava ou movia o homem, constando de três partes: razão, vontade e apetite). 

PLATÃO privilegiava a relação Homem-Estado, enquanto afirmava a dualidade Corpo-Alma, onde essa será superior àquela e como conseqüência estabelecia um total desinteresse pelas coisas materiais, em favor quase que exclusivista das coisas do espírito. Na época platônica notava-se um desprezo pelo trabalho físico e a exaltação das classes dedicadas às atividades consideradas superiores: contemplação, política e a guerra. Na sua ética, os escravos não tinham lugar no Estado ideal, pois seriam desprovidos de virtudes morais e direitos cívicos. Assim, na ética platônica existia uma estreita unidade da moral e da política, pois para ele o homem se formava espiritualmente somente no Estado e mediante a subordinação do indivíduo à comunidade. 

Veio a seguir Aristóteles, que foi discípulo de Platão. Mas Aristóteles se opunha a seu mestre no que dizia respeito ao dualismo ontológico. Para ele a idéia não existia separada dos indivíduos concretos. A idéia existia somente nos seres individuais. E Aristóteles procurava responder à pergunta fundamental: qual é o fim último para o qual tende o Homem? Para a felicidade, dizia ele. E esta felicidade não era o prazer ou a riqueza, mas a vida teórica ou contemplação, guiada pelo que o homem tinha de mais característico e elevado: a razão.

  Para se realizar esta vida, dizia ele, eram fundamentais as virtudes não inatas, mas que se adquiriam ou conquistavam pelo exercício. Estas virtudes ele as considerava em duas classes: as intelectuais e as práticas ou éticas. Finalmente considerava Aristóteles que a felicidade se alcançava mediante a virtude, porém com algumas condições necessárias: maturidade, bens materiais, Liberdade pessoal e saúde, embora estas condições isoladas não bastassem para fazer alguém feliz.

Aristóteles considerava que o homem enquanto tal só poderia viver na cidade, pois era por natureza um animal político, ou seja, social. Somente os deuses e os animais não tinham necessidade da comunidade política para viver. Mas ele afirmava que esta vida teórica só era possível a uma minoria ou elite, da qual a maior parte - os escravos - estava excluída. Dentro deste quadro, o homem - o sábio - devia ser, ao mesmo tempo, um bom cidadão.

Com a decadência do mundo antigo greco-romano, surgiram os Estóicos e os Epicuristas. 

Para ambos, a moral não mais se definia em relação à cidade, mas ao universo (cosmos). O problema moral era colocado sobre o fundo da necessidade física, natural, do mundo. Por isso, a física se tornava a premissa da ética. 

Para os estóicos o mundo passava a ser o centro de tudo, onde só acontecia o que Deus quisesse. Passava a dominar assim uma fatalidade absoluta. Não existia a liberdade nem o acaso. Como conseqüência, o homem que vivia no mundo tinha seu destino rígido e só lhe restava aceitar este destino e agir consciente dele. Deixava de ter necessidade da comunidade, pois passava a viver moralmente como cidadão do mundo, do cosmo. Já não era limitado a uma “polis”, a uma comunidade menor. Para os epicuristas tudo o que existia, incluindo a alma, era formado de átomos materiais, não havendo nenhuma intervenção divina nos fenômenos físicos nem na vida humana. 

Livre assim de temores religiosos, o homem passava a buscar seu bem neste mundo, o qual era representado pelo prazer, ainda que considerassem alguns prazeres como inadequados, somente devendo buscar aqueles que contribuíssem para a paz da alma. O homem procurava em si mesmo, ou num pequeno círculo de amigos, a tranqüilidade da alma e a auto-suficiência. 

Com esta ética se desfaziam a unidade moral e da política. Sobre as ruínas desta sociedade surgiu a Ética Cristã, sobretudo após o século IV quando o cristianismo se tornou a religião de Roma. 

A ética cristã, essencialmente Teocêntrica, partia das revelações de Deus, das relações do homem com o seu criador e do modo de vida prático que este homem devia seguir para alcançar a sua salvação. Nesta ética, a relação do homem, mais do que uma inter-relação com a comunidade ou com o mundo – cosmos -, estava ligada a Deus, seu criador. 

Também no que dizia respeito às virtudes havia uma superioridade do divino. Ainda que assimilando as virtudes fundamentais já enunciadas por Platão: prudência, fortaleza, temperança e justiça, acentuava virtudes supremas ou teologais: fé, esperança e caridade. Enquanto as fundamentais regulavam as relações entre os homens, as teologais relacionavam o homem com Deus. 

Na ética cristã, já não existiam as diferenças entre os homens: todos eram iguais diante de Deus, independentemente de serem livres ou escravos, cultos ou incultos. Mas esta ética de igualdade foi lançada numa época de enormes desigualdades e assim muita incompreensão histórica surgiu dos fatos então acontecidos. Muitas vezes a desigualdade material e social não foi condenada pela ética cristã, gerando com isso críticas violentas no mundo moderno. Para melhor compreender esta situação é preciso situar-se no momento histórico-social do tempo em que tal aconteceu. Na verdade o cristianismo veio dar aos homens, pela primeira vez em sua história, a consciência de sua igualdade - onde incluía os oprimidos e explorados - mas numa época onde não havia condições reais e sociais para esta igualdade efetiva. 

Na Idade Média, a igualdade só podia ser um nível espiritual ou visualizada num mundo do amanhã, também espiritual. Portanto o cristianismo tinha uma profunda marca da Idade Média, quando era totalmente fantasioso pensar-se numa igualdade real de todos os homens. Esta mensagem certamente terá sido a semente da modificação radical que se processou no decorrer da história e que, apesar de estarmos longe ainda de sua plena realização, vem se processando às vezes rápida, às vezes lentamente, mas sempre em caminhada. 

No século XV surge a Moral Burguesa, caracterizada pela exploração do Homem pelo Homem, dando como corolário o início e a expansão do Capitalismo, no século seguinte. 

A ética dominante a partir do século XVI até o século XIX denomina-se Ética Moderna, Racionalista, embasando a Revolução Industrial do século XVIII. Esta ética, contrapondo-se à ética teocêntrica da Idade Média, tornou-se antropocêntrica e teve sua maior expressão em Kant. 
Houve mudanças na economia, incrementando-se as forças produtivas e a ciência. Na ordem social surgiu uma nova classe: a burguesia, seguindo-se a extinção da sociedade feudal, de pequenos Estados, dando origem à formação dos grandes Estados. 

Na religião, surgiram os movimentos reformistas, separando-se a razão da fé, a natureza de Deus, o Estado da Igreja e até mesmo o homem de Deus. Com isto, a ética moderna tornou-se essencialmente antropocêntrica, isto é, tornou o homem como o centro de sua atenção. E Kant deu então o seu mandamento fundamental: “Age de maneira que possas querer que o motivo que te levou a agir se torne uma lei universal”. 

Finalmente chegamos na Ética Contemporânea, que tem o seu início em meados do século XIX, provocada pelas violentas mudanças ocorridas em toda a humanidade, com o desenvolvimento das ciências que chegaram ao paradoxo de criar condições cada vez mais eficientes de destruição, até mesmo da própria humanidade. Ocorreu então uma reação: 

a) Contra o formalismo e o universalismo abstrato e em favor do homem concreto. 

b)   Contra o racionalismo absoluto e em favor do reconhecimento do irracional no comportamento humano. 

c)   Contra a fundamentação transcendente da ética e em favor da procura da sua origem no próprio homem. 

As principais correntes desta Ética Contemporânea são: o Existencialismo, o Pragmatismo, a Psicanálise, o Marxismo, o Neopositivismo e a Filosofia Analítica. 

No Existencialismo, Kierkegaard e Sartre representam seus principais teóricos. Para ambos, o que vale é o homem concreto, o indivíduo como tal. Ao racionalismo é contraposto um irracionalismo absoluto e um individualismo radical. O que diferencia Sartre de Kierkegaard é a crença em Deus, pois para Sartre Deus não existe, e o homem é plenamente livre sem qualquer vinculação com um criador. 

O pragmatismo nasce e se difunde essencialmente nos Estados Unidos, estreitamente ligado ao desenvolvimento técnico e científico e do espírito de empresa. O pragmatismo se caracteriza pela sua identificação da verdade com o útil, no sentido daquilo que melhor ajuda a viver e a conviver. Para esta corrente, eticamente quando se diz que algo é bom, significa que leva eficazmente à obtenção de um fim, que leva ao êxito. Deste modo torna-se essencialmente egoísta. 

A Psicanálise deu sua contribuição ética por afirmar que existe uma zona da personalidade da qual o sujeito não tem consciência (inconsciência). Isto faria com que certos comportamentos e atitudes recebessem uma outra explicação e, portanto, uma nova conceituação ética. 

No Marxismo, a visão do Homem é de ser produtor, transformador, criador, social e histórico. Dentro desta visão, são estabelecidas as premissas de uma ética marxista, dando especial valor às classes e destas, especialmente ao proletariado cujo destino histórico é abolir a si próprio dando origem a uma sociedade verdadeiramente humana. 

Finalmente no Neopositivismo e nas Filosofias Analíticas parte-se da necessidade de libertar a ética do domínio da metafísica, acabando por concentrar a sua atenção na análise da linguagem moral. Há uma insurreição contra toda ética que pretenda definir o bom como uma propriedade natural, quando se trata de algo que não pode ser definido. E que, portanto, só pode ser captado por meio da intuição. A esta condição são conduzidos também os conceitos de dever, justeza, obrigação. No mundo da Ética contemporânea, Mary Warnock afirma: “Todas as analogias e modelos destinados a esclarecer a linguagem ética têm o aspecto de tentativas preparatórias para limpar a mesa do jogo. E é natural que nos sintamos logrados quando comprovamos que, uma vez limpa a mesa, parece estar terminado o próprio jogo”. 

Em nosso século, o Capitalismo Financeiro substitui o Capitalismo Industrial, dando origem aos trustes e aos cartéis. Somando-se à exploração do Homem pelo Homem, vem a exploração dos Países pobres pelos Países ricos. Daqueles são retirados, por esses, as matérias-primas e até os alimentos, sem haver, contudo, qualquer contrapartida sócio-econômica. 

A política, a arte e a ciência vão adquirindo uma autonomia cada vez maior, e a ética, tanto quanto a religião, perde a hegemonia que exercia sobre a sociedade tradicional. E, num segundo tempo, a economia assume o papel dominante ficando até mesmo a ética a ela subordinada. A Consciência passa a ser considerada como uma forma de censura e de cerceamento da liberdade, enquanto essa adquire foros de plenitude sem limites. Tudo se justifica em nome da liberdade! A regra predominante se torna a procura do “melhor produto”, então considerado como o que dá mais lucro e não o que é melhor para o Ser Humano. A tecnologia supera tudo e se transforma na verdadeira deusa dos tempos modernos. Com ela, nasce e atinge sua plenitude a Ética da Manipulação, regida pelos grupos dominantes que afirmam: “assim é que deve ser”. A filosofia de vida assume uma nova conotação: “os outros que se danem!” 

Essa Ética da Manipulação se caracteriza pelos seguintes pontos: 

1) Todo processo educativo será orientado para construir cidadãos submissos e manipuláveis. Pensar, refletir e tomar consciência deverão ser reduzidos aos níveis mínimos. O cidadão ideal será algo como “uma ameba em coma alcoólica...”  A educação visará prioritariamente o processo de produção e consumo e o HOMO SAPIENS será substituído pelo HOMO FABER. 

2) Os meios de comunicação se tornarão instrumentos ideais da manipulação. E o maior deles será a Televisão, onde o diálogo é totalmente inexistente. A psicologia será posta a serviço desse sistema de mass-media, manipulando cientificamente a opinião pública, criando necessidades mesmo onde elas inexistam ou até mesmo sejam indesejáveis. Os anúncios, mais que vender produtos, deverão estimular o consumismo exacerbado, pela criação de necessidades fictícias. O cidadão passará a comprar coisas, não porque delas realmente necessite, mas porque lhe foi incutido cientificamente acreditar nessa falsa necessidade. 

Exemplo disso é a indústria farmacêutica inglesa que em 1973 gastou 33 milhões de libras em publicidade contra 30 milhões em pesquisas... 

3) O imediatismo será estimulado, bem como a fixação na condição de descartabilidade das coisas. Com isso, se criará uma falta de esperança num futuro melhor e as pessoas buscarão resultados rápidos, mesmo em detrimento da qualidade. Cada conquista será rapidamente descartada para que novos valores sejam buscados. Até o Ser Humano se tornará descartável, seja nas relações afetivas - separações, divórcios, amizades passageiras - seja nas comerciais, onde as demissões individuais ou em massa se farão sem qualquer constrangimento, criando uma legião de infelizes desempregados. 

4)  O próprio exercício da pesquisa científica será manipulado, ficando essa restrita a um campo sofisticado e exclusivo, onde o objetivo será sempre e tão-somente o resultado, com uma absoluta redução ou até anulação do valor da vida, que perderá sua sacralidade. O poder será a meta fundamental e o homem terá estimulado o seu desejo de dominação e exploração do seu semelhante sem qualquer escrúpulo. Diante desse quadro, de certo modo assustador, faz-se mister que o homem de hoje, do aqui e agora, busque encontrar a ética dentro dos valores imutáveis tanto quanto dos transitórios, formando seu conceito de vida em função de sua própria dignidade de homem, centro indiscutível de toda a criação. 

Como pistas iniciais para uma reflexão mais profunda, colocamos os seguintes pontos: 

1)  Como norma básica, pode-se afirmar que “nem tudo o que é cientificamente possível, é eticamente permitido”. Dentro desse princípio, não se deve cair no rigorismo fundamentalista, nem escorregar para o laxismo modernista. Sem desprezar as tradições como conservadoras, deve-se olhar para frente, porém com os pés cravados nas experiências vividas. A História, preventiva da repetição dos mesmos erros, será cultivada e respeitada. 

2)  A vida humana deverá ser inteiramente respeitada, desde a fecundação até a morte. O Ser Humano nunca será considerado um meio, mas sempre o fim. Exemplo se faz no uso de placebos na experimentação terapêutica. Não se pode colocar em risco a vida ou a saúde do Ser Humano, pela omissão deliberada da terapêutica adequada, com o único objetivo de se testar uma nova medicação experimental. 

A esse propósito, deve-se ressaltar que as experiências dos fatos ocorridos durante a II Guerra Mundial gerou o chamado “Código de Nuremberg”, de 1946, destinado a limitar possíveis experimentações médicas em Seres Humanos. Em 1962, com modificações em 1964, foi efetivada a “DECLARAÇÃO SOBRE AS PESQUISAS BIOMÉDICAS”, em Helsinki, com nova revisão em Tóquio, no ano de 1975. E, para mantê-la sempre atualizada à luz de novas conquistas científicas, ficou deliberado que outras modificações poderiam vir a ser feitas, sempre que necessário. 

Dentro desses princípios, define-se essencialmente que a pesquisa biomédica somente será aceita como tal, se for verdadeiramente “Pesquisa”, ao invés de experimentações irrelevantes apenas para aumento curricular de seus autores. Será exigida uma correta avaliação da relação danos/benefícios e o consentimento prévio dos pacientes será indispensável para o início e continuidade de trabalhos experimentais. Ainda que esse seja um ponto bastante controverso em determinados casos, onde uma interferência psicológica por parte do paciente poderá alterar substancialmente os resultados de uma pesquisa. Assim, caberá aos pesquisadores buscarem alternativas que atendam as necessidades técnicas da pesquisa, sem, contudo, violentar os direitos básicos do Ser Humano. 

De qualquer forma, toda a relação entre pesquisadores e pacientes deverá necessariamente ter um caráter de “cumplicidade”, ao invés de furtividade oportunista. Para isso, os profissionais deverão estabelecer uma comunicação inteiramente compreensível ao paciente, ao invés da costumeira utilização de um linguajar técnico, manipuladoramente hermético aos não iniciados, tais como o “mediquês”, o “psicologuês”, o “economês”, etc., somente acessíveis à casta privilegiada da Comunidade técnica específica. 

 3) Mas, não só o Ser Humano deverá ser protegido pelas normas da Bioética, mas todas as formas de vida existentes na natureza. Afinal, o Homem depende vitalmente de todas elas. Entre os temas mais polêmicos está a chamada “Vivissecção”, que é o estudo em animais, ditos irracionais, vivos. Em 1978 a UNESCO firmou a Declaração Universal dos Direitos dos Animais, que entre outras coisas termina dizendo: “Todo ato que acarrete a morte de um animal, sem necessidade, é biocídio, isto é, delito contra a vida”. E prossegue: “Todo ato que acarrete a morte de grande número de animais selvagens é genocídio, isto é, delito contra a espécie. 

Com tudo isso, busca-se uma “Moralidade dos atos humanos” que o Catecismo Universal da Igreja Católica, publicado em 1993, explicita muito bem no primeiro capítulo de sua terceira parte, ao indicar que essa Moralidade depende: 

1) Do OBJETO ESCOLHIDO - Ou seja, o bem para o qual se dirige deliberadamente a vontade. 

2) Da INTENÇÃO com que se busca o objeto. Mas tendo sempre presente que “o fim não justifica os meios”. Uma intenção má pode tornar mau um objeto bom. 

3) Das CIRCUNSTÂNCIAS DA AÇÃO - Que podem aumentar ou diminuir a gravidade do ato e a responsabilidade do agente. Mas não revertem totalmente a qualidade moral de uma ação. 

E acrescenta: “O ato moralmente bom supõe a bondade do objeto, da intenção e das circunstâncias. Não se pode fazer um mal para que dele resulte um bem”. 

A partir daí, podemos concluir duas regras básicas e obvias: 

a) Faça ao próximo, o que gostarias que ele te fizesse. 

b) A caridade respeita o próximo e sua consciência. 

Uma palavra final sobre o histórico e o ensinamento da ética: 

Não acreditamos ser possível “ensinar” ética a um adulto. Podemos, isto sim, fornecer subsídios para um desenvolvimento da Consciência Crítica que irá proporcionar à pessoa uma melhor possibilidade de avaliação de seus atos e dos acontecimentos que ocorrerem em seu redor. Com esta avaliação ele será capaz de orientar e reorientar o seu próprio comportamento, tornando-o ético diante de si mesmo, diante da comunidade em que vive e diante do Criador Supremo. Ética começa no berço. Compete aos pais, os primeiros educadores, forjar o caráter de cada novo ser dentro de corretas normas éticas, não só pelas palavras, mas sobretudo pelos exemplos. 

Quem traz de sua infância estes conceitos certamente irá aprimorá-los na sua vida adulta e conseqüentemente viveremos num mundo melhor. Numa sociedade onde o egoísmo, o pragmatismo frio, a ambição e o apego têm a sua morada, o homem se torna cada vez menos homem, cada vez mais máquina e nesta distorção vem a infelicidade, a angústia, o sofrimento estéril. Acompanhando a história do homem, sua evolução social, cultural e ética, poderemos tirar lições importantíssimas para o futuro da humanidade. Uma casa se constrói sobre os alicerces assim como o futuro do homem se constrói sobre o seu passado. Mas assim como a casa somente é habitada depois de construída, o homem deve habitar o seu mundo no “aqui e agora”, utilizando os alicerces do passado, mas sem se prender a ele. Pensando no futuro, mas construindo-o já, no momento em que vive, pois esta é a única realidade que possui. Lamentar o passado ou viver sonhando com o futuro é desperdiçar totalmente a sua vida, que é realidade hoje. 

Este é o sentido de se estudar ética, começando pela sua história e vivendo-a na sua realidade de hoje. 


Fonte: Da obra “Comportar-se fazendo bioética para quem se interessa pela ética” de Evaldo Alves D’Assumpção, Petrópolis, RJ: Vozes, 1998


Um comentário:

Shirley Roseli disse...

Olá querida!
Passando para conhecer seu blog e adorei.
Estudei a matéria ética e percebi que a maioria das pessoas não coloca em prática, quase enlouqueci com essa matéria. rsrs
beijinhos
http://aquifofura.blogspot.com.br/

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Olá!!
Obrigada por comentar!
Aproveita para curtir e me seguir também!
Um beijo!!